
Vários critérios entram em jogo para identificar uma lenda do esporte: conquistas, é claro, mas também impacto nos direitos civis, transformação de uma disciplina, e influência cultural muito além do campo. Nos últimos anos, os rankings da mídia e os trabalhos acadêmicos têm integrado essas dimensões complementares. As maiores lendas do esporte se destacam por essa capacidade de modificar duradouramente a percepção de uma época, não apenas de um placar.
Lendas do esporte e ativismo: quando o campo se torna tribuna
Relatórios de organizações como a Anistia Internacional ou a Human Rights Watch agora identificam alguns atletas como figuras de referência do ativismo contemporâneo. A ligação entre desempenho e engajamento político é documentada há várias décadas.
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Mohamed Ali permanece como o caso fundador. Três vezes campeão mundial de boxe, ele se recusou a se alistar durante a guerra do Vietnã, perdendo seu título e vários anos de carreira. Sua luta fora do ringue moldou um modelo que foi adotado por outros atletas.
Colin Kaepernick, ao se ajoelhar durante o hino americano, reabriu um debate nacional sobre a violência policial nos Estados Unidos. Megan Rapinoe trouxe publicamente a questão da igualdade salarial no futebol feminino, enquanto militava pelos direitos LGBTQ+.
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O que impressiona é que o engajamento extraesportivo redefine o status de lenda. Esses atletas não são mais mencionados apenas nas páginas esportivas, mas em relatórios de ONGs e análises de think tanks. Para explorar outros caminhos desse tipo, uma fonte útil: https://legendesdusport.fr/, que documenta essas trajetórias cruzadas entre desempenho e influência social.

Atletas paralímpicos: as lendas esquecidas dos rankings
As listas de lendas do esporte publicadas online compartilham um ângulo cego. Os atletas paralímpicos estão ausentes ou reduzidos a uma menção no final do artigo.
A tendência começou a se inverter. Desde 2021, mídias como ESPN ou BBC incluem atletas paralímpicos em seus rankings anuais. O Comitê Paralímpico Internacional publicou uma lista de cinquenta momentos que marcaram seis décadas de Jogos Paralímpicos, destacando trajetórias como a de Tatyana McFadden ou Beatrice Vio.
McFadden, nascida com uma malformação na coluna vertebral, conquistou títulos em várias distâncias em cadeira de rodas, do sprint à maratona. Vio, esgrimista italiana amputada dos quatro membros após uma meningite, dominou sua categoria no florete. A exclusão deles dos rankings tradicionais reflete um viés cultural mais do que uma falta de desempenho.
Os dados disponíveis ainda não permitem medir se essa visibilidade aumentada modifica a percepção do grande público. No entanto, a crescente presença desses atletas na mídia geral marca uma virada editorial que merece ser acompanhada.
Lendas do esporte contemporâneas: do atleta à marca global
A literatura econômica recente mostra que os atletas contemporâneos alcançaram um status de marca global sem precedentes. LeBron James, Cristiano Ronaldo, Lionel Messi não são apenas atletas premiados. Eles gerenciam impérios midiáticos, linhas de produtos e investimentos que superam suas receitas esportivas.
Essa mutação muda a própria definição da lenda esportiva. Onde Pelé ou Maradona eram celebrados por seus gestos técnicos, as lendas atuais também são avaliadas por sua capacidade de transformar uma audiência em comunidade econômica. O fenômeno não tem equivalente nas décadas anteriores.
Algumas características distinguem essas trajetórias:
- Uma presença nas redes sociais que lhes dá acesso direto a centenas de milhões de pessoas, sem filtro midiático tradicional
- Parcerias comerciais que vão além do patrocínio clássico para incluir participações de capital em empresas tecnológicas ou esportivas
- Um engajamento público em causas sociais que reforça seu status além da mera performance atlética
Serena Williams ilustra essa convergência. Com seus títulos de Grand Slam, ela domina o tênis feminino por duas décadas. Mas sua influência também se estende à moda, ao capital de risco e à defesa dos direitos das mulheres no esporte profissional.

Esporte feminino e lendas históricas: o que os rankings não dizem
Alice Milliat organizou os primeiros Jogos Olímpicos femininos em 1922, em uma época em que o Comitê Olímpico Internacional recusava a participação das mulheres na maioria das provas. Kathrine Switzer se tornou em 1967 a primeira mulher a correr oficialmente a maratona de Boston, enquanto oficiais tentaram fisicamente impedi-la durante a corrida.
Essas pioneiras abriram disciplinas inteiras para metade da população mundial. Florence Griffith-Joyner ainda detém os recordes dos 100 m e 200 m femininos desde 1988. Marie-José Pérec, tricampeã olímpica, continua sendo uma das atletas francesas mais premiadas.
O problema persiste na cobertura editorial. Os rankings de lendas do esporte concedem em média menos espaço às atletas femininas, mesmo quando suas conquistas são comparáveis ou superiores às de seus colegas masculinos. As opiniões em campo divergem sobre esse ponto: alguns meios de comunicação corrigiram esse desequilíbrio nos últimos anos, enquanto outros continuam a estruturar suas listas em torno de um punhado de nomes masculinos recorrentes.
O ranking continua sendo uma base, mas o impacto social, a ruptura cultural e a capacidade de transformar uma disciplina agora pesam tanto na avaliação coletiva. As próximas listas de referência deverão integrar essas dimensões para refletir o que o esporte realmente produz na sociedade.