Aryna Sabalenka, número um mundial no momento de sua publicação, posta em agosto de 2025 uma foto topless no Instagram durante suas férias após sua eliminação em Wimbledon. A imagem desencadeia reações massivas, mas a cobertura midiática francófona para quase sistematicamente no registro do buzz. O assunto merece um tratamento mais preciso: o da autonomia corporal de uma atleta e do que essa autonomia revela das normas que ainda cercam o esporte feminino.
Tratar o topless de uma atleta sem reduzir o assunto ao buzz
Quando um meio de comunicação esportivo titula sobre o corpo de uma campeã, a abordagem escolhida orienta a leitura. A maioria dos artigos dedicados à foto de Sabalenka segue um esquema idêntico: descrição da imagem, compilação de reações de fãs, lembrança do histórico. Esse tratamento coloca o corpo no centro e a performance em nota de rodapé.
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O problema não é a foto. É a grade de leitura aplicada pelos meios de comunicação que transforma um ato pessoal em controvérsia. Uma publicação no Instagram, independentemente de seu conteúdo, continua sendo uma escolha editorial da pessoa que publica. A questão pertinente diz respeito à recepção, não ao gesto.
O desafio em torno de Aryna Sabalenka seminu e esporte vai além do fato diversional de verão. Toca na forma como o esporte feminino é narrado e nos preconceitos que persistem nessa narrativa.
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Normas de vestuário no esporte feminino: um quadro raramente questionado
O tênis impõe códigos de vestuário rigorosos em competição. Wimbledon exige o branco total. Os outros torneios do Grand Slam aplicam suas próprias regras sobre as roupas permitidas. Essas regras dizem respeito ao campo de jogo, não à vida privada das jogadoras.
Fora da quadra, nenhuma federação regula o que uma atleta publica em suas redes pessoais. A confusão entre esses dois espaços, a competição e a vida privada, alimenta, no entanto, a maioria dos comentários.
O que os regulamentos abrangem e o que não abrangem
- Os códigos de vestuário em competição referem-se à roupa de jogo: corte, cor, presença de logotipos. Eles variam de acordo com os torneios e as federações
- As cartas de boa conduta dos patrocinadores podem incluir cláusulas de imagem, mas elas pertencem ao contrato privado entre a atleta e a marca, não a uma norma esportiva
- As publicações nas redes sociais estão sujeitas aos termos de uso das plataformas (o Instagram permite a nudez parcial não sexualizada em certos contextos), não às regras do esporte
Nenhuma regra esportiva proíbe uma jogadora de publicar uma foto topless fora da competição. O escândalo percebido repousa sobre uma norma social, não sobre uma infração.
Expressão pessoal ou estratégia de imagem: uma distinção a ser feita
Os resultados midiáticos sobre esse assunto não distinguem entre uma escolha pessoal e uma estratégia de comunicação. A diferença é importante.
Uma atleta do calibre de Sabalenka gerencia uma imagem pública que integra patrocinadores, parcerias e visibilidade midiática. Cada publicação em uma rede seguida por milhões de pessoas produz efeitos mensuráveis em termos de engajamento. Isso não significa que cada foto seja resultado de um cálculo de marketing.
Três leituras possíveis de uma mesma publicação
A mesma imagem pode ser interpretada como um momento de férias compartilhado espontaneamente, como uma afirmação assumida do direito de dispor de sua imagem, ou como um conteúdo calibrado para maximizar a visibilidade. Essas três leituras coexistem sem se excluir, e a escolha de reter apenas uma diz mais sobre o comentarista do que sobre a atleta.
O reflexo midiático de buscar uma intenção oculta por trás do corpo de uma atleta reproduz um esquema antigo. Os atletas masculinos que publicam fotos sem camisa não são objeto de artigos dedicados nem de análises de estratégia. A assimetria de tratamento entre atletas e atletas nesse ponto continua sendo um marcador confiável do caminho que ainda resta a percorrer.
Esporte feminino e autonomia corporal: além do caso Sabalenka
Sabalenka não é a primeira atleta cuja imagem não esportiva provoca mais cobertura midiática do que um resultado em competição. Esse esquema se repete há anos no tênis, natação, atletismo e ginástica.
O problema estrutural reside na parte da visibilidade midiática concedida ao corpo das atletas femininas em comparação com suas performances. Quando um artigo sobre uma foto de férias gera mais visualizações do que um relato de semifinal de Grand Slam, o desequilíbrio é mensurável.
O que realmente mudaria a situação
- Que os meios de comunicação esportivos cobrissem os resultados e as táticas do esporte feminino com a mesma profundidade técnica que para o esporte masculino
- Que as publicações pessoais das atletas fossem tratadas como fatos da vida privada, não como eventos esportivos
- Que a liberdade do corpo das atletas fosse considerada adquirida e não como um tema de debate permanente
A autonomia corporal de uma atleta não deveria constituir um ângulo editorial. O fato de que isso permaneça indica que as normas de pudor aplicadas às mulheres no esporte não evoluíram no mesmo ritmo que as performances.
O caso Sabalenka acabará sendo substituído por outro. A mecânica midiática permanecerá a mesma enquanto a abordagem privilegiar o corpo em vez do histórico. Cobrir o esporte feminino à altura do que ele produz em campo continua sendo o meio mais concreto de sair desse ciclo.